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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Resenha de "O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações"

Acredito que ninguém mais passe por aqui, dada a inatividade de quase um ano do blog. Segue, de qualquer forma, parte de uma recente resenha que publiquei na revista Ponto-e-vírgula da PUC-SP. Acredito ser interessante principalmente para os colegas internacionalistas.


O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações
Tzvetan Todorov



Em seu livro O medo dos bárbaros, Tzvetan Todorov, nascido na Bulgária em 1939 e residente na França desde 1963, apresenta criticamente as maneiras como pensadores que vão desde Rousseau até Samuel Huntington entenderam as noções de civilização, barbárie, cultura e identidade. Resgatando historicamente esses termos, Todorov alcança seu objetivo principal de revelar as formas assumidas pela barbárie e pela civilização na época contemporânea.

A preocupação central do autor é mostrar como o medo dos bárbaros pode ensejar nas vítimas comportamentos tão desumanos quanto aqueles perpetrados pelos seus agressores. Conforme Todorov, “o medo dos bárbaros é o que ameaça converter-nos em bárbaros. [...] A história nos ensina: o remédio pode ser pior que a enfermidade” (Todorov, 2010, p. 15).

Para evitar o perigo de uma reação excessiva e, em última instância, o fim da existência da espécie humana, dadas as capacidades atuais das armas de destruição em massa, Todorov lança um apelo ao diálogo, mas não aderindo a um “angelismo qualquer” – pois ele mesmo reconhece que “não se deve deixar de combater ativamente as ameaças terroristas” (Todorov, 2010, p. 19). Assim, entendendo que é insuficiente manifestar boas intenções ou proclamar as virtudes do diálogo, ele afirma que o enfrentamento dos fatos é indispensável e exige que todos estejam abertos para questionar suas próprias certezas e evidências.


No primeiro capítulo (Barbárie e civilização), Todorov foca sua análise nos termos barbárie e civilização, definindo que “os bárbaros são aqueles que negam a plena humanidade dos outros” (Todorov, 2010, p. 27); enquanto o civilizado “é quem sabe reconhecer plenamente a humanidade dos outros” (Todorov, 2010, p. 32).

Entendendo a barbárie e a civilização como características intrínsecas aos seres humanos, o autor afirma ser ilusório tentar identificar um período específico da história da humanidade ou uma região qualquer do planeta como um exemplo de barbárie ou civilização. Pois “nenhuma cultura traz em seu bojo a marca da barbárie, nenhum povo é definitivamente civilizado; todos podem tornar-se bárbaros ou civilizados. Esse é o caráter próprio da espécie humana” (Todorov, 2010, p. 65)

No segundo capítulo (As identidades coletivas), Todorov defende que cada indivíduo participa ao mesmo tempo de inúmeras identidades, cujas amplitudes são variáveis. Ele destaca, sobretudo, três tipos de identidade: a primeira refere-se à “cultura”, com um caráter mais sentimental de apego à terra dos antepassados; a segunda, mais presente na esfera cívica, corresponde ao Estado, ao país do qual somos cidadãos; e a terceira diz respeito ao projeto moral e político ao qual decidimos aderir e em defesa dos quais somos capazes de atitudes intransigentes.

Ele procede dessa maneira, pois entende que a redução da identidade múltipla do indivíduo à identidade única permite a irrupção da violência, transformando as identidades em “identidades assassinas” (categoria trabalhada por Amin Maalouf). Matar um vizinho porque ele é tutsi significa esquecer-se de todas as outras filiações às quais ele pertence – de sua profissão até sua humanidade. Se “qualquer indivíduo é pluricultural” e se “não existem culturas puras; pelo contrário, todas elas são mistas (ou ‘híbridas’, ou ‘mestiças’)” (Todorov, 2010, p. 69), é coerente pensar que a coexistência pacífica entre as diferentes culturas do mundo deva ser possível.

Com base nessa interpretação, Todorov inicia seu terceiro capítulo (A guerra entre Ocidente e islamismo) criticando a tese de Samuel Huntington presente em sua obra O choque das civilizações. Segundo o filósofo franco-búlgaro, Huntington teria imaginado as culturas a partir de um modelo guerreiro, no qual, à semelhança de jovens combatentes, cada um convencido de sua superioridade, elas se enfrentam até o triunfo de uma e a morte de outra.

Se você chegou até aqui, talvez se interesse em ler o resto no local original: http://www.pucsp.br/ponto-e-virgula/n8/artigos/pdf/pv8-16-enzotessarolo.pdf


Abraços,
Enzo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Reformas da Administração Pública Brasileira: avanços e retrocessos (II)


Para os meus quatro leitores, em especial para os companheiros do meu grupo de estudo que com certeza estavam ansiosos pela continuação do artigo, seguem abaixo as considerações sobre as reformas implantadas no período democrático. Se vocês ficarem um pouco perdidos no início, sugiro que leiam o post anterior, já que ele é a primeira parte deste artigo.

O quadro político-institucional da máquina estatal no governo Sarney ficou marcado por um anacronismo, uma defasagem entre a sociedade democrática e o Estado. O desafio era reverter esse cenário, transformando o aparelho administrativo em ente reduzido e eficiente, receptivo às demandas societárias.

Em função do contexto político-econômico do final da década de 80, entretanto poucas mudanças ocorreram na Administração Pública. Entre as destacáveis, está a intenção de valorizar a função pública com a criação de escolas e centros de aperfeiçoamento, como a Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e a Fundação Centro de Formação do Servidor Público (Funcep); e o objetivo de se promover a avaliação do desempenho do servidor, instituindo um novo plano de carreira.

Enquanto o governo Sarney tentava reformar o aparelho estatal brasileiro, na Assembleia Nacional Constituinte buscava-se formular uma nova Constituição, preocupada com a ordem social, a cidadania, a organização do Estado republicano, as formas de participação coletiva e o financiamento do gasto público, dando direção e fundamento à Administração Pública. De fato, a Constituição de 1988 representou uma verdadeira reforma do Estado, como afirma Frederico Lustosa da Costa (2008).

Não obstante os avanços alcançados pela nova Constituição e pela gestão de Sarney (acompanhados de retrocessos como a adoção de um regime jurídico único a todos os servidores públicos, que transformou milhares de empregados celetistas em estatutários, provocando um problema previdenciário ainda hoje não resolvido), o desafio de tornar eficiente o aparelho estatal não foi alcançado durante a década de 80; e nem no governo Collor, que promoveu a desestatização de maneira irresponsável e extinguiu desnecessariamente vagas no serviço público.

É o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado elaborado na gestão de Fernando Henrique Cardoso, no ano de 1995, que inaugura um novo modelo de funcionamento do Estado, conhecido como “administração gerencial” (em 1998, as emendas 19 e 20 impulsionariam as medidas dessa reforma, ao modificar o equivocado Regime Jurídico Único, introduzir o princípio da eficiência no direito administrativo e instituir o Plano Plurianual). Preocupado em superar de vez os traços patrimonialistas entalhados na Administração brasileira, esse Plano promoveu a distinção entre as atribuições primordiais do Estado com o objetivo de focalizar a atuação estatal nas funções de formulação e avaliação de diretrizes de política pública.

A justificativa para tal separação de funções é explicada por Marcelino. Segundo o autor, a administração indireta ficaria encarregada de executar as atividades estabelecidas pela administração direta, pois “a implementação de políticas exige agilidade e flexibilidade por parte das instituições que vão realizá-las, diferentemente da função de formulação” (MARCELINO, 2003, p. 651).

O governo FHC, influenciado pelo pensamento de Bresser Pereira, também buscou modificar o eixo histórico do funcionamento do Estado: desde 1930, a ênfase das reformas estava nos meios (orientada para processos, métodos); agora, a essência da proposta era nos resultados (a satisfação das necessidades dos cidadãos).

Houve um verdadeiro “choque cultural”, na interpretação de Fernando Abrucio (2007), que influenciou a atuação dos gestores públicos e contribuiu para inovações governamentais e mudanças institucionais nos últimos dez anos. Dentre os fatores positivos dessa reforma podemos destacar, então, as medidas de restrição orçamentária, como a imposição de tetos para o gasto com o funcionalismo, e de otimização das políticas, por meio da introdução do princípio da eficiência como base do direito administrativo.

Quanto às críticas feitas ao plano reformista da gestão FHC, sabe-se que elas concernem ao predomínio dos fatores econômicos na lógica de seu governo, o que teria tolhido o avanço da autonomia de entidades da administração indireta pelo medo de perder o controle sobre os gastos públicos. Além disso, segundo Abrucio (2007), os parlamentares temiam a implantação de um modelo administrativo mais transparente e voltado ao desempenho, pois isso diminuiria a capacidade de a classe política influenciar a gestão dos órgãos públicos, pela via da manipulação de cargos e verbas.

Convém ressaltar que o contexto histórico-político da década de 90 era muito mais complexo para a elaboração de uma reforma no aparelho de Estado do que aquele da reforma getulista e do Decreto-Lei nº 200. Afinal, não estávamos mais numa ditadura, mas numa democracia. Ou seja, o processo decisório não era mais centralizado, advinha de negociações e debates – um contexto muito mais suscetível a empecilhos ao plano reformista.

Conquanto a gestão FHC tenha promovido uma importante reorganização administrativa, persistiram ainda os traços patrimonialistas na cultura política brasileira; e o chamado modelo weberiano, baseado na meritocracia, não foi extinto, e sim aperfeiçoado. Um número importante de concursos foi realizado e a capacitação feita pela Enap, revitalizada.

A ampla reforma da gestão pública, contudo fracassou ainda no início do segundo mandato de Fernando Henrique, em função do problema estrutural citado e de alguns erros estratégicos ocorridos no momento de definir quais eram as funções estratégicas do Estado, que ficaram restritas aos cargos ligados basicamente à diplomacia, às finanças públicas, à área jurídica e à carreira de gestores governamentais (da qual pretendo fazer parte).

A gestão de Lula, por sua vez, tem se caracterizado pela continuação de várias iniciativas exitosas da experiência modernizante do governo FHC, pela ênfase dada ao campo do planejamento e das políticas públicas, e (ironicamente, dada a crise política de 2005) pelo aperfeiçoamento de alguns mecanismos de controle de corrupção.

Inspirado pela ascensão da democracia participativa no Brasil, a atual administração buscou reforçar os meios de comunicação entre população e governo, e entre União e entes federados. Ampliaram-se, nesse sentido, as discussões sobre o Plano Plurianual e criaram-se o Programa Nacional de Apoio à Modernização da Gestão e do Planejamento dos Estados e do Distrito Federal (Pnage) e o Programa de Modernização do Controle Externo dos Estados e Municípios Brasileiros (Promoex), ambos responsáveis por modernizar a administração pública em âmbito subnacional, em especial a nível estadual.

Ainda que o governo FHC também tivesse criado um programa de auxílio aos estados, o caráter dele estava relacionado à área financeira. O Pnage e o Promoex, por outro lado, tratam de uma temática mais ampla: a da gestão pública. A preocupação com os gastos estatais deixou de ser o fio condutor do processo de reforma; agora, o objetivo maior é reconstruir a administração pública em suas variáveis vinculadas ao planejamento, aos recursos humanos, à sua interconexão com as políticas públicas e ao atendimento dos cidadãos (ABRUCIO, 2007).

No que diz respeito aos resultados alcançados pelo Pnage/Promoex, Fernando Abrucio afirma que seu maior avanço deles foi construir tais programas por meio de ampla participação e discussão com os estados e tribunais de contas. “Este modelo intergovernamental e interinstitucional é mais participativo e funciona mais em rede do que de forma piramidal. Sua concepção é a mais adequada para implementar ações administrativas numa federação, em nítido contraste com a (nefasta) tradição centralizadora do Estado brasileiro” (ABRUCIO, p. 12, 2007).

Não se pode falar, contudo que a presidência Lula promoveu uma reforma da gestão pública. Assim como os governos (democráticos e autoritários) anteriores, o atual foi incapaz de estabelecer uma agenda reformista – ainda que tenha insistido no aumento da efetividade das políticas públicas (particularmente sociais) sem prejuízo fiscal. O Brasil ainda carece de uma visão integrada e de longo prazo para a gestão pública.

Um ponto negativo do modelo administrativo do governo Lula foi o amplo loteamento dos cargos públicos, com indicações para cargos no Executivo para promover acomodações políticas. Mesmo que essa prática não tenha sido inventada pela gestão petista, sua amplitude e vinculação com a corrupção surpreenderam negativamente devido ao histórico de luta republicana do Partido dos Trabalhadores.

É difícil (e talvez até errado) ver o lado bom de escândalos de corrupção, mas “se houve algo positivo na crise política de 2005 é que, depois do conhecimento pelo grande público do patrimonialismo presente em vários órgãos da administração direta e em estatais, tornou-se mais premente o tema da profissionalização da burocracia brasileira” (ABRUCIO, p. 77, 2007) e as ações contra a corrupção aumentaram.

Após os escândalos, avançaram os trabalhos da Polícia Federal e da Controladoria Geral da União no que diz respeito ao combate à corrupção no país. E reforçou-se a profissionalização de carreiras estratégicas do governo: uma condição sine qua non para o bom desempenho de políticas públicas.

Uma avaliação maior do funcionamento do Estado brasileiro não caberia nestas breves páginas. Por isso, à guisa de conclusão, percebe-se que ainda sofremos com os traços históricos negativos da administração pública brasileira: o patrimonialismo, o clientelismo e a corrupção. Para conter esses impulsos calamitosos ao interesse público, um planejamento de longo prazo baseado na profissionalização do servidor público, na eficiência do direito administrativo, na efetividade e na transparência das políticas públicas é necessário. Assim, o Brasil poderá se tornar um país sério.


Referências

ABRUCIO, Fernando Luiz. Trajetória recente da gestão pública brasileira: um balanço crítico e a renovação da agenda de reformas. Revista de Administração Pública, v 1, p.77-86, 2007.

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: um longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

LUSTOSA DA COSTA, Frederico. Brasil: 200 anos de administração pública; 200 anos de reformas. Revista de Administração Pública, v. 42, n.5, p 829 - 874, 2008.

MARCELINO, Gileno Fernandes. Em busca da flexibilidade do Estado: o desafio das reformas planejadas no Brasil. Revista da Administração Pública, v. 37, n. 3, p 641-659, 2003.

MARE. (Ministério da Administração e Reforma do Estado). Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Brasília: Presidência da República, Imprensa Oficial, 1995.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Braziliense, 1979.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Reformas da Administração Pública Brasileira: avanços e retrocessos




A reformulação do aparelho estatal é um tema constante nos debates políticos nacionais e, em pouco tempo, estará presente na plataforma dos Presidentes da República. Em busca da compreensão do funcionamento atual da Administração Pública e das disfunções do nosso Estado, este artigo realiza um breve retrospecto analítico das reformas administrativas brasileiras (1937, 1967, 1995), levando em consideração o contexto histórico no qual ocorreram.

Inicialmente, cabe ressaltar que foi no início do século XIX, com a vinda da família real portuguesa ao Brasil, que se criaram as condições para o surgimento do nosso espaço público, na medida em que a transferência da Corte favoreceu a transformação de uma constelação caótica de organismos superpostos em um aparelho de Estado.

Enquanto na era colonial, como constata Caio Prado Júnior (1979), a Administração Pública brasileira caracterizava-se por atribuições que não obedeciam a princípios uniformes de divisão de trabalho e hierarquia, fazendo surgir funções e competências que já pertenciam a outros servidores; no período em que a Corte esteve aqui o governo criou uma série de instituições e inovações jurídico-administrativas que tiveram grande impacto no cotidiano da antiga colônia.

Como resultado do processo histórico que se desenrolou do século XIX até a Revolução de 1930, no qual a centralização do poder era contrabalanceada pelo controle dos governadores no âmbito estatal, a cultura política brasileira ficou definida por traços patrimonialistas e clientelistas , que tolheram o desenvolvimento da democracia no Brasil – como identificou o estudo, por exemplo, de José Murillo de Carvalho (2002).

O primeiro esforço no sentido de superar a característica patrimonialista do Estado brasileiro ocorreu na Era Vargas, quando a primeira reforma administrativa ocorreu no Brasil. Embora instituída em um período ditatorial (1937-1945), tratou-se de uma tentativa ambiciosa de burocratizar a Administração Pública, introduzindo no aparelho estatal imperativos de impessoalidade, hierarquia, sistema de mérito, e a separação entre o público e o privado. A reforma, com forte inspiração weberiana, prestigiava a racionalidade e a eficiência, visando impulsionar o modelo de crescimento baseado na industrialização via substituição de importações.

Se, por um lado, o Estado Novo de Vargas fechou o Congresso Nacional e as assembléias legislativas, suspendeu garantias constitucionais, centralizou recursos, perseguiu adversários políticos e outorgou uma nova Constituição; por outro, estimulou o crescimento da indústria nacional e promoveu a racionalização burocrática do serviço público, revisando o modelo de administração de pessoal, de material e do orçamento.

Entre os maiores exemplos de suas medidas reformistas, está a criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), organizado com a missão de definir e executar a política para o pessoal civil. É a partir desse momento que a admissão mediante concurso público e a capacitação técnica do funcionalismo entram em vigor, assim como a racionalização de métodos na elaboração do orçamento da União.

Segundo Marcelino (2003), doutor em administração pela USP, o Dasp obteve relativo êxito na tentativa de universalizar o sistema do mérito no Brasil até 1945, ano do fim do Estado Novo, quando foram nomeados os primeiros servidores civis sem concurso público para cargos de vários organismos públicos. Findou-se, dessa forma, o impulso reformista da década de 30.

Somente nos anos 60 que um novo ciclo reformista se reiniciou, influenciado por estudos realizados no período de governo de JK. Formulado novamente por um governo autocrático, a essência do projeto de reforma administrativa de 1967 estava na defesa da expansão da intervenção do Estado na vida econômica e social. Acima de tudo, essa reforma buscava modernizar o aparelho do Estado e torná-lo mais eficiente, prescrevendo princípios de planejamento, coordenação e descentralização para a administração federal.

Entre as principais medidas instituídas pelo Decreto-Lei nº 200/1967, que estabelecia os princípios norteadores dessa reforma administrativa, estão a substituição das atividades de funcionários estatutários por celetistas e a criação de entidades da administração descentralizada (fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista e autarquias) para a realização da intervenção econômica do Estado.

Porém, de acordo com Marcelino (2003) o ímpeto modernizante e a tentativa de dar maior agilidade e flexibilidade à atuação da Administração acabaram por multiplicar a administração indireta, provocando um efeito dicotômico ainda hoje sentido entre Estado tecnocrático e moderno (representado pelas entidades da administração descentralizada) e Estado burocrático e defasado (o Estado da administração direta).

Embora entre 1979 e 1982 outros importantes avanços tenham ocorrido na Administração Pública em decorrência de programas instituídos pelo Poder Executivo, os quais buscavam a desburocratização e a desestatização, o governo civil de 1985 ainda teve de enfrentar a excessiva centralização do aparelho estatal – uma herança dos governos autoritários na política nacional.

Outro grande desafio a ser superado pelos novos governos democráticos estava ligado à imagem negativa do serviço público como fonte geradora de privilégios e ineficácia, em função de anos de reprodução de práticas patrimonialistas e fisiológicas, durante os quais 100 mil empregados ingressaram no serviço público sem concurso. A solução para esse desafio, porém está na segunda parte deste artigo, que pode ser encontrada aqui.

Referências

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: um longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

MARCELINO, Gileno Fernandes. Em busca da flexibilidade do Estado: o desafio das reformas planejadas no Brasil. Revista da Administração Pública, v. 37, n. 3, p 641-659, 2003.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Braziliense, 1979.


segunda-feira, 8 de março de 2010

Estado, sociedade e catástrofes: os terremotos no Chile e no Haiti.




O terremoto que atingiu o Chile foi um dos maiores registrados na história mundial, marcou um tremor de 8.8 graus na escala Richter, foi cerca de 500 vezes mais potente que aquele que devastou o Haiti e conseguiu até mesmo alterar o eixo de rotação da Terra. Mas, ao contrário do que ocorreu no país caribenho, onde praticamente duzentas mil pessoas morreram, o número de falecidos na nação andina não chegou à unidade dos milhares. Como explicar essa discrepância?

No caso do Chile, tal diferença na capacidade de conter o impacto dos terremotos na vida dos cidadãos é explicada pela eficiência histórica dos governos democráticos chilenos no que diz respeito à regulação da construção civil; pela eficácia da ação civil e da polícia no socorro às vítimas; e pela incisiva atuação das Forças Armadas em atenuar o caos, instalando bases em lugares estratégicos e tentando evitar roubos e tumultos nas cidades afetadas pela catástrofe.

Do lado haitiano, o alto número de mortos é explicado por fatores sócio-políticos ligados à pobreza histórica. O Haiti é habitado por uma população carente de ensino básico desde a Revolução Haitiana, a qual afugentou os cidadãos mais instruídos (hoje, cerca de metade da população é analfabeta); e sofre com as dívidas externas do século XX contraídas para pagar as indenizações da guerra com a ex-metrópole colonial, a França. Além disso, mesmo após a Revolução, o poder se manteve nas mãos de uma reduzida elite de proprietários de terra, que na era colonial contribuiu para o aumento da dependência econômica haitiana na produção de açúcar.

Na análise de Antonio Jorge Ramalho de Rocha, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o Estado haitiano não têm conseguido organizar a vida social de uma maneira estável e sóbria, pois não há instituições políticas na trajetória histórica dele, apenas sucessão de governos.

Como conseqüência, a qualidade da infraestrutura haitiana é péssima, o que dificultou o trabalho da defesa civil e o recebimento de ajuda humanitária após a catástrofe; as construções civis são frágeis (grande parte das casas é feita de madeira); e na capital 50% da população é composta por crianças, as quais são, obviamente, mais fracas fisicamente. Sem contar que o Haiti não tem Corpo de Bombeiros e o exército não é profissional.

Quanto aos impactos econômicos, Antonio de Rocha afirma que a economia do Haiti já era muito fraca e dependente de ajuda externa antes do terremoto (cerca de 75% do PIB provinha de remessas de haitianos do exterior), devido à imagem de que o país é perigoso (a história do Haiti é marcada por sucessivas ditaduras). Agora, com as cidades devastadas, é preciso elaborar um plano entre governo haitiano e comunidade internacional que se preocupe em interromper o círculo vicioso presente no país: tem muita pobreza, não há investimento...

No que diz respeito ao Chile, segundo dados do “The Economist”, a recuperação da infraestrutura destruída está estimada em cerca de 20% do PIB. Levando-se em consideração que o contexto internacional é de retração na economia, e que a exportação de commodities chilenas diminuiu 1% em 2009, essa não é uma notícia muito animadora. Por outro lado, os preços mundiais do cobre, principal produto chileno, já aumentaram em decorrência da expectativa de diminuição na oferta desse insumo; e a mineração, uma das principais fontes de renda chilena, sobreviveu ao terremoto.

As diferentes histórias políticas e as desiguais capacidades de intervenção estatal na sociedade mostraram-se determinantes para o sucesso chileno e para o fracasso haitiano na prevenção dos efeitos causados pelos terremotos. Com a força estatal, o governo chileno pôde agir eficazmente nesse momento de exceção; já no Haiti, onde não há instituições políticas sólidas, o governo teve que esperar pela ajuda humanitária internacional para conter o impacto do desastre em sua sociedade.


sábado, 6 de março de 2010

“Guerra e Cinema: logística da percepção”



As marcas da Segunda Guerra Mundial deixadas na infância de Paul Virilio, que presenciou a ocupação nazista em Paris e os bombardeios dos aliados em Nantes, talvez estejam relacionadas com seu interesse em estudar o fenômeno da guerra. Qualquer que tenha sido sua motivação, o fato é que a análise da “logística da percepção militar” presente em “Guerra e cinema” é oportuna numa época em que guerras e atentados terroristas são transformados em espetáculos.

A partir de uma abordagem que define a história das batalhas como a história da metamorfose de seus campos de percepção, o autor constrói a tese de que a “guerra não pode jamais ser separada do espetáculo mágico” (p. 24). No primeiro capítulo do livro, Paul Virilio afirma que as técnicas de representação, da cartografia até a fotografia e a cinematografia, foram sistematicamente empregadas nos conflitos do século XX não só como forma de propaganda às populações civis, mas também na preparação de táticas e estratégias pelos combatentes. É sob essas duas perspectivas, aliás, que o autor estrutura seu livro, ora apresentando argumentos que identificam o cinema como propaganda, ora mostrando os benefícios trazidos pela técnica cinematográfica à tecnologia militar (ou vice-versa).

Como exemplo da utilização do cinema como instrumento de propaganda, no capítulo “o cinema Fern Adra” o filósofo francês afirma que não foi por acaso que os filmes de guerra multiplicaram-se durante a II Guerra. No momento em que os dois lados do conflito buscavam mobilizar as massas, EUA e Alemanha encontraram no cinema o aparelho que procuravam. Em Hollywood, a produção cinematográfica, quando não era financiada pelo Pentágono, era acompanhada atentamente pelo Alto Comando militar, resultando em películas como Why we fight (Por que nós combatemos), de 1942. Do lado nazista, o financiamento do governo permitiu que a indústria cinematográfica alemã se igualasse, em termos técnicos, à Hollywood – produzindo grandes épicos como Die goldene Stadt (A cidade dourada), 1942.

Ainda quanto ao uso do cinema como forma de propaganda às populações civis, Paul Virilio afirma que foi após o término do primeiro conflito mundial que se criou a necessidade de se impor às massas “cultos de substituição”, na medida em que a partir da Grande Guerra as antigas relações entre religião e Estados militar-industriais chegaram ao fim. Nesse sentido, os Estados que haviam se constituído por meio de violência aberta contavam naquele momento com poucos meios de persuasão, e o cinema logo foi nacionalizado, a exemplo do que ocorreu na União Soviética com Lênin, na tentativa de criar uma unidade nacional.

No segundo capítulo (“o cinema não é eu vejo, mas eu voo”) e no terceiro, intitulado “vós que entrais no inferno da imagem perdei toda esperança”, Virilio continua sua análise dos impactos da Primeira Guerra Mundial sobre a evolução das técnicas cinematográficas e militares. Ele afirma que é nesse momento que se inicia a “heroicização cinemática”, isto é, os soldados passam a ser eternizados no cinema como heróis nacionais; e que uma grande revolução nos campos de batalha se desenrola: a imagem se prepara para triunfar sobre o objeto, o tempo sobre o espaço, em uma guerra na qual a representação dos acontecimentos dominará a apresentação dos fatos.

Trata-se, afinal, da “logística da percepção militar” a qual Virilio se refere. Uma forma de compreender o mundo da guerra a partir do casamento entre arma e olho, órgão de percepção que, a partir da Primeira Guerra, passou a ser representado no âmbito militar pela aviação, encarregada de reconhecer os movimentos dos inimigos nos fronts. Mas os olhos serão, sobretudo, os olhos das objetivas das primeiras câmeras de bordo. “A realidade da paisagem de guerra torna-se cinemática, porque tudo muda, tudo se transforma, [...] tornando inúteis os mapas do Estado-Maior e os antigos levantamentos topográficos” (p. 169).

O advento da Segunda Guerra Mundial tornaria essa logística ainda mais transparente. A Blitzkrieg, a batalha do Marne (em 1940), a extrema mobilidade dos exércitos, toda essa “nova unidade de tempo dos conflitos” contribuiu para a percepção de que apenas o fotograma do filme de guerra permitiria a compreensão do campo de batalha. Assim, mais uma vez as Forças Armadas buscaram aperfeiçoar as pesquisas no campo visual, na tentativa de apreender a nova dinâmica de guerra.

A velocidade percebida nos enfrentamentos da Segunda Guerra relaciona-se com aquilo que o autor denominou dromologia. Uma perspectiva que implica o declínio das táticas de guerra, do poder-mover, e o prestígio dos movimentos de combate (daí o emprego do termo em grego, dromos, que sugere uma corrida), do poder-comover. A dromoscopia, enfim, representa a derrota do tempo de reflexão para a velocidade dos sentidos: “[...] agora se trata menos de compreender do que ver” (p. 81).

Desenvolvendo esse conceito em forma de crítica à sociedade atual, nos capítulos finais, o autor denuncia a negação do caráter humano na guerra; não no sentido moral, mas no sentido técnico, de que os soldados (em sentido amplo) renunciam sistematicamente, e deliberativamente, à imagem ocular em favor da mira ótica. Trata-se do que Virilio chamou de fé numa “visão sem olhar”.

Da mesma forma, o autor atenta para a expansão do campo de percepção dos conflitos. O combate é substituído por simuladores que, cada vez mais, se assemelham a um cinema permanente. O real se confunde com o virtual; o ver com o prever. Enfim, são vários os exemplos dados pelo filósofo que apontam para a eliminação do elemento humano na guerra, e para a transformação desta num filme, num espetáculo.

“Guerra e cinema” não é um livro preocupado em examinar o conteúdo de filmes de guerra. Não obstante as referências a produções cinematográficas presentes em toda a obra, o autor está muito mais interessado em mostrar a linha tênue que separa a evolução das técnicas cinematográficas das militares. Partindo de um ponto comum aos dois campos, a criação do projetor de luz em 1904, Paul Virilio constrói sua tese de que a guerra depende de representações e afirma, inclusive, que “a guerra vem do cinema, e o cinema é a guerra” (p. 61).

O filósofo francês faz uma análise inovadora e angustiante, revelando aspectos que relacionam a indústria cultural à indústria militar. A leitura requer certa concentração, em decorrência das idas e vindas do autor pela história, mas é proveitosa e pertinente numa era marcada pelo apego à tecnicidade. Como nos lembra Virilio, “[...] ainda ontem, morria-se por um brasão, uma imagem inscrita em um estandarte ou uma bandeira, mas agora morre-se para aperfeiçoar a nitidez de um filme, a guerra torna-se, enfim, a terceira dimensão do cinema...” (p. 194).

Referências
VIRILIO, Paul (2005). Guerra e cinema: logística da percepção. São Paulo: Boitempo, 208 p., ISBN 85-7559-076-6.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Avatar



É engraçada a forma como você passa a assistir filmes depois de ter lido/feito estudos políticos sobre a relação entre o contexto histórico e o conteúdo das produções cinematográficas. Avatar, que vi no domingo, é um exemplo dessa relação dialética. O filme, que se passa no futuro, trata de modo exemplar dos medos e temas do início do século XXI: guerras contra povos estrangeiros (bárbaros, alienígenas...); embate entre ciência e religião, tecnologia e natureza; questões relacionadas ao Meio-Ambiente e aos direitos humanos; enfim, uma diversidade de tópicos que me impressionou tanto quanto o aspecto visual (fenomenal) da película.


A apresentação do herói do filme, Jake Sully, é carregada de símbolos que nos trazem de volta ao nosso tempo. Jake é paraplégico, consequência de sua participação numa operação militar na Venezuela (isso mesmo... Venezuela!); e só está no planeta Pandora porque seu irmão gêmeo, um cientista renomado que iria atuar na missão alienígena, morreu numa tentativa de assalto. Ou seja, nossos problemas sociais ainda persistem num futuro altamente tecnológico.


Quando o objetivo da missão em Pandora é explicado ao protagonista, fica claro que um dos temas centrais do filme são as consequências da crise energética que se desenvolve no presente momento. Além das sutis, mas óbvias, referências a guerras na Venezuela e na Nigéria (países ricos em petróleo), os humanos estão em Pandora para explorar um mineral raro que pode resolver a questão energética na Terra. O problema é que o mineral se encontra exatamente na região mais sagrada para os habitantes do planeta alienígena, os Na’vi.


É a partir dessa trama que a história se desenvolve. Por meio da conexão do cérebro de Jake a um corpo Na’vi criado em laboratório (à Matrix e/ou Second Life), o protagonista se insere na tribo alienígena com o objetivo de compreendê-la e negociar com ela um acordo ou, caso necessário, eliminá-la para obter os minerais. A favor da negociação pacífica com os Na’vi estão os cientistas, os quais são apresentados como inteligentes, humanos e compreensíveis (enfim, “bons”); enquanto os militares, defensores de uma ação mais agressiva, são rudes, maldosos e desumanos.



Aliás, “agressiva” não é o adjetivo utilizado pelo coronel (general?) da missão em Pandora. Nas palavras dele, após destruir a árvore gigantesca que conecta todos os seres do Planeta, os humanos “devem combater o terror com terror”, numa ação “preemptiva”. Ou seja, um ataque deveria ocorrer ao local sagrado dos Na’vi, antes que eles se unissem contra os terráqueos; enfim, os alienígenas são uma ameaça e por isso devem sofre uma retaliação. Alguém aí percebeu semelhanças com os discursos de Bush?


Ainda quanto às referências ao terrorismo, na cena em que a árvore sagrada dos Na’vi é destruída (naves atiram mísseis nela, ateando fogo e fazendo-a ruir sob as cabeças dos “na’vinianos”), não há como não se lembrar dos ataques às Torres Gêmeas... levando-se em consideração o vínculo que o povo alienígena possui com a mãe natureza, destruir aquela árvore foi praticamente um genocídio.


Com relação ao embate entre a tecnologia e a natureza, uma questão já muito explorada em Hollywood por diretores famosos como Spielberg - pra citar um só filme: Jurassic Park-, a lição do filme é que a natureza se vingará, no final, dos homens tecnológicos-destridores. Assim como em Senhor dos Anéis os Ents (espécie de pastores de árvores, que protegem as florestas) lutam contra a destruição do Meio-Ambiente provocada pelos Orcs, em Avatar dragões e tigres combatem naves e tanques... e vencem.


São muitos tópicos para se debater, mas o tempo é curto. Pra concluir, então, só me resta dizer que o enredo, em si, é bem bobinho. É aquele velho conto do guerreiro que se apaixona por uma cultura primitiva e passa a questionar os valores de sua própria sociedade – filmes que vão de “Pocahontas”, passando por “O Último Samurai” até "O Planeta dos Macacos". De qualquer forma, eu recomendo!




domingo, 5 de julho de 2009

O mundo das incertezas internacionalistas

Recentemente, publiquei duas enquetes na comunidade de Relações Internacionais da UVV, no orkut. Em uma eu perguntava qual matéria deveria ser retirada da nossa grade curricular; e, na outra, buscava saber o que o aluno de RI da UVV se imaginava fazendo após o fim do curso. Na primeira, a maioria decidiu que “Português” (29%) é, disparada, a matéria mais irrelevante ou impertinente da nossa grade, seguida por “Inglês e Espanhol” (14%), e “Projeto de Monografia” e “Economia Capixaba” – com iguais 11%. Já no que diz respeito às ambições futuras, a maior parte dos alunos pretende seguir carreira diplomática (22%), trabalhar com comércio exterior (14%), continuar no meio acadêmico fazendo mestrado em RI (14%) ou iniciando outra graduação (14%).


Confesso que o resultado da enquete sobre a alteração na grade curricular não me surpreendeu. Embora a Tânia “Talentosa” (vai dizer que você não se lembra da dinâmica de se definir com um adjetivo que se inicie com a mesma letra do seu nome?) seja uma pessoa muito simpática e uma boa profissional, o conteúdo programático dessa matéria não difere daquele das aulas de português do ensino fundamental e médio – conteúdo que, por sinal, não é muito bom e contribui para a perpetuação da condição quase analfabeta da população brasileira, a qual não sabe interpretar textos, como mostram pesquisas feitas pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos e pelo Ibope.


A mesma crítica pode ser feita ao ensino de inglês. Aprendemos tudo aquilo que já vimos desde a 1ª série, com as nossas “tias”: o verbo “to be”. A culpa, novamente, não é da professora Renata, que até tenta incluir vocabulários relacionados às relações internacionais, e sim do desnível entre os alunos. Quanto ao espanhol, cujo aprendizado recentemente se tornou obrigatório nas escolas brasileiras, pesa o fato de que em seis meses de aula na UVV (mesmo que ministradas pelo excelente professor Pablo) ninguém estará apto a negociar, ler ou escrever textos acadêmicos nessa língua. O ideal para aqueles que não sabem esses idiomas seria procurar um curso específico fora da faculdade, no qual poderão aprender sem prejudicar aqueles que já os estudaram.

Em suma, o resultado sobre a grade curricular está muito atrelado ao modo como as matérias são apresentadas. Nesse sentido, pode-se discutir também a importância dos tópicos discutidos em “Economia Capixaba”, que estão muito mais voltados para os estudos da geografia do estado do que para relação íntima da região com o comércio exterior (uma abordagem mais apropriada para o curso). Fazendo uso das palavras do colega Zé Paulo, sobre uma questão de prova que perguntava se a bovinocultura é a atividade mais importante do município de Ecoporanga, “o que raios me importa e qual a verdadeira relevância disso para a grade de relações internacionais”?

Essa mesma pergunta precisaria ser feita a vários outros professores, os quais deveriam se preocupar em relacionar a matéria que estão lecionando com o estudo de relações internacionais. Afinal, a base, as expectativas, e as dificuldades de um estudante desse curso são diferentes de um aluno do curso de biomédicas, direito ou administração. Nós somos apenas tijolos no muro, caros professores, mas somos tijolos diferentes. Gostaríamos que os senhores se dispusessem a preparar suas aulas sabendo em qual curso as estão expondo.



Quanto à segunda enquete, me surpreendi com o resultado. Não esperava que a maioria dos alunos pensasse em seguir carreira diplomática ou no magistério, dada a irrisória participação em projetos como “Nações” ou o desleixo de grande parte dos colegas, que apenas “estudam para passar”. Se o objetivo de quase ¼ dos futuros internacionalistas formados na UVV realmente for esse, é realmente imprescindível uma reformulação na nossa grade curricular, de modo a diversificar os assuntos lecionados – que tal estudarmos um pouco sobre a região da América do Sul ao invés de aprendermos pela milionésima vez a história da política externa norte-americana? - e intensificar o estudo da política externa brasileira.

Durante esse último semestre, portanto, percebi que não estou sozinho no mundo das incertezas internacionalistas. Assim como eu, os meus colegas se afligem com as mesmas dúvidas sobre o futuro no mercado de trabalho e se indignam com as mesmas questões referentes ao nosso curso. É certo que alguns já sabem qual caminho seguirão com o iminente término da graduação em Relações Internacionais, mas muitos continuam sem saber o que fazer a partir do próximo ano. Se você é um destes, bem-vindo ao clube.
ps: agora que eu vi que não comentei sobre "Elaboração de Projetos". Mas, pensando bem, acho que essa dispensa comentários...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Quanto vale o ser humano?


Só para manter esse blog em atividade, reproduzo aqui uma dissertação que escrevi há muito tempo.

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. (Cecília Meireles)

O conceito de liberdade é caracterizado pelo estado ou condição de homem livre. Até que ponto somos livres numa sociedade em que a estrutura é fechada e os indivíduos com baixo poder aquisitivo são excluídos? A conjuntura social, tolhida pelos princípios capitalistas, apresenta um círculo vicioso da miséria e nos torna escravos do processo.

A ideia atual de liberdade está diretamente ligada à economia, ou seja, nesse processo quanto mais capital um individuo possui, mas liberdade pode ter. Além disso, em países como o Brasil, onde há um predomínio católico, a sociedade estabelece uma esmola instituída. Baseado em valores cristãos, em que um individuo deve ajudar o próximo, a hipocrisia circunstante torna a miséria em algo positivo – ao doar alimento ou agasalho o cidadão acredita estar ajudando, quando na verdade contribui para a instalação do círculo vicioso da miséria.

Para ser livre é necessário abdicar de valores, como os dogmas religiosos e as ideias capitalistas. No fundo, no entanto, todos somos conservadores e é impossível ser totalmente livre. O ser humano vale o quanto é capaz de produzir e é avaliado não por seus nobres valores morais, mas pela quantidade de seus bens materiais.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Suruba linguística: português, uma língua bastarda


Essa discussão toda sobre as novas leis ortográficas do português despertou em mim um interesse súbito em conhecer melhor as origens da nossa língua. Pesquisando e ouvindo comentários de especialistas cheguei a duas conclusões: a primeira, as línguas são como pessoas. Elas têm pai, mãe, avós, irmãos; crescem, adoecem e um dia morrem, deixando descendentes. A segunda, correlacionada com a primeira, é que o português não é uma língua igual às outras.

Ao contrário das demais, que geralmente só tem um pai e uma mãe, o português tem uma mãe e vários pais. Ou seja, o idioma que falamos é um filho bastardo do latim (que, aliás, “gostava da coisa”, já que teve nove filhos, entre eles, o italiano, o espanhol e o francês) com outras línguas. Ainda na Antiguidade, várias “fusões” ocorreram. Primeiro, entre os celtas e os iberos, depois, entre esses povos e os fenícios, que invadiram a região da Península Ibérica e os obrigaram a falar o fenício, formando o “celta-ibero-fenício” (entre os séculos X e I a.C.). Quando os gregos e os romanos chegaram, por volta de I a.C, nossa língua materna não pensou duas vezes e se fundiu novamente (atualmente, por isso, temos cerca de 2 mil palavras em grego no nosso idioma).

Com a queda do Império Romano no Ocidente, os germanos aproveitaram o momento de fraqueza imperial para reivindicar um lugar na suruba. Por sinal, a influência que a civilização romanizada e cristã lusitana sofreu dos povos bárbaros germânicos é percebida na nossa língua até hoje, visto que quase 2 mil palavras portuguesas derivam do alemão. A última e uma das mais duradouras e significantes penetrações foi realizada pelos árabes, os quais permaneceram 400 anos na Lusitânia – cerca de 30 mil vocábulos portugueses decorrem hoje do árabe (a maioria das palavras iniciadas em “al”, sem contar algumas expressões, como “Oxalá”, que significa “queira deus” ). Em Portugal, portanto, a mistura lingüística terminou no século XV, quando o Rei Dom Manoel promulgou uma lei proibindo a entrada de qualquer outra língua no país.

No Brasil, porém, a língua portuguesa continuou se fundindo com outras. Durante o período colonial, sofreu influência das línguas indígenas locais (hoje, a maioria dos nomes de locais e de animais derivam delas) e das línguas africanas - temos 12 mil termos africanos atualmente em nossa língua, reflexo dos 300 anos de escravidão, quando havia 260 mil brancos falantes do português e 3 milhões de negros falando idiomas africanos, de acordo com Gilberto Freyre -. Além desses idiomas, podem-se destacar também o holandês e o espanhol como pais da língua portuguesa na época de colônia.

Como você deve ter imaginado, essas fusões não foram suficientes para saciar nossa língua mãe. Nos séculos XIX e XX, ainda se uniram ao nosso idioma o italiano (5000 palavras), o japonês e, por fim, as línguas predominantes do século passado (francês e inglês), as quais conseguiram fascinar e domar também o português, que não hesitou em empregar termos como abajur, sutiã, piquenique, boite, bar, folder, banner, outdoor... Ora, o português pode até ser um filho bastardo (e promíscuo), mas, pelo menos, isso nos tornou (sem sabermos) poliglotas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Entrevista com Aloisio Krohling

Olá,

O Professor Aloisio Krohling nos concedeu a seguinte entrevista sobre os temas mais debatidos aqui no blog e na mídia, em geral.


1. O que representa a vitória do candidato negro Obama nas eleições americanas?

Existem duas posições em relação à negritude do candidato. Primeiramente, percebe-se que a mídia norte-americana e européia explorou nas suas manchetes a vitória do negro e o aparente avanço desta escolha para questão racial nos EUA. O negro virou algo midiático e a sua família se tornou o foco principal da novidade e do inédito - o fato de ter crianças negras e esposa de classe média em Washington continuará manchete até o final do mandato do Presidente OBAMA. Qualquer primeira DAMA na "White House" é a Rainha que os Estados Unidos não assumiram na sua independência da Inglaterra. Enfim, o fato é que a sociedade americana continuará dividida em brancos, negros, latinos e clandestinos de todas as culturas e nunca será uma sociedade multicultural com igualdade social.
A segunda posição é aquela que afirma que a eleição de Obama representa o pós-racismo. O próprio candidato não estaria ligado às lutas dos Direitos Civis de Martin Luther King e outros, por ser de outra geração e porque não colocou esta questão racial na sua campanha. A atual conjuntura política americana teria mudado e não exigiria mais a ênfase na questão racial. Alguns comentaristas chegam a admitir que Obama não levantou esta questão racial na campanha por estratégia eleitoral e que nem agora depois de eleito fará isto, pois, o que ele mais precisa é a união de todos diante da grave crise econômica e financeira.


2. Quais são as conseqüências da crise financeira global, sob o ponto de vista político-econômico?

François Chesnais e Eric Hobsbawm escreveram artigos mostrando a gravidade da atual crise financeira e econômica perguntando se o velho Karl Marx não tinha razão nas suas análises. Não será a crise do capitalismo? Seria o fim do neoliberalismo que sempre pregou o Estado Mínimo?

Bernardo Kucinski, nesse artigo, mostra a derrocada dos bancos americanos e seus efeitos no mundo e a queda dos gigantescos bancos hipotecários e de investimento americanos e alguns europeus que acelera o declínio do dólar e põe em xeque a hegemonia americana.

A questão que mais se levanta é a estatização dos bancos e o socorro imediato dos Bancos Centrais aos banqueiros falidos. Apesar da catástrofe e do terremoto financeiro, como aconteceu após 1929, o capitalismo vai continuar forte como nunca, agora admitindo abertamente a necessidade do Estado intervir em casos como este. Os liberais conservadores nunca foram coerentes em termos de fundamentação teórica, afirmam a tese da “mão invisível da economia”, mas vivem de pires na mão pedindo socorro ao Estado, quando não corrompendo os agentes públicos. O tão propalado Estado de Direito é o Estado de direito capitalista.
Por fim, sabe-se que Obama caiu de luva para os grandes empresários e banqueiros norte-americanos e mundiais. Como aceitaram a lei de Seguridade Social de Roosevelt, em 1934, agora aceitarão outro “New Deal” do Presidente negro, comprometido com a classe média e os pobres. A conseqüência será a recessão econômica e mais uma vez os mais pobres pagarão a conta. Haverá outra ideologia maquiando o neoliberalismo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Batman, Locke e a questão da identidade.

Escrevo, hoje, sobre duas áreas que me interessam imensamente, o cinema e a filosofia. Utilizando o livro do Cabrera, traço um paralelo entre os ideais empiristas britânicos e os filmes de Batman com relação ao conceito de substancialidade (identidade). Assim, inicialmente (parte I), apresento as principais opiniões sobre essa idéia para depois abordá-las e discuti-las nos filmes (parte II).

Parte I – da filosofia (Locke)

A noção de substancialidade é definida, segundo Cabrera, como a essência de algo, uma noção que distingue o que a coisa é. Nesse sentido, este autor destaca que a substância seria o fundamento último de um objeto e, que, portanto, o separaria de outras coisas, que possuem estruturas diferentes.
Cabrera aponta Locke como o primeiro grande crítico moderno a tratar sobre esse conceito. O filósofo empirista teria ressaltado a dificuldade de se discutir a idéia difusa e abstrata de “substância”, ao afirmar que “tudo o que se pode fazer com uma noção sem sentido empírico é tentar explicar de onde ela pode ter se originado” (CABRERA, 2006, p. 160). O que existiria, então, seriam as idéias sobre a estrutura dos objetos.
A problemática da substancialidade se apresenta ainda mais interessante quando adaptada para seres humanos, pois se percebe que a autoconsciência, que falta nas coisas imateriais, está presente nos homens. Sobre isso, Locke diz que os critérios de identidade pessoal seriam definidos pela consciência que um indivíduo tem de si. “O constante nos seres humanos não é nenhuma ´substância`, mas somente uma operação, a operação de reconhecer a si mesmo na autoconsciência de seus próprios atos” (CABRERA, 2006, p. 161).

Parte II – do cinema (Batman)

O cinema também tratou da questão da identidade pessoal, ainda sobre a lógica da substancialidade em relação aos humanos, ao contar histórias de pessoas que se transformam em vampiros, lobos, moscas etc. Nesse sentido, uma pergunta pode ser feita a partir da ocorrência desses acontecimentos: “essas pessoas que se transformam continuam sendo as mesmas depois de suas transformações?” (CABRERA, p. 162).
Se tentássemos responder essa indagação levando-se em consideração os filmes de Batman, poderíamos chegar à conclusão de que Bruce Wayne e Batman são a mesma pessoa, visto que o Bruce não sofre nenhuma mutação em seu corpo, apenas veste uma roupa e um cinto (que possui tudo que você pensar) para se transformar no “Cavaleiro das Trevas”. Assim, as mutações que Bruce sofre são puramente externas – “não afetam a corporalidade de Wayne, mas somente sua atuação e seu comportamento” (CABRERA, p. 163).
Todavia, essa questão é muito mais complexa, pois o simples fato de Bruce modificar seu comportamento e personalidade, quando transformado em Batman, já seria um indício de que ele é outra pessoa, uma vez que ele se torna irreconhecível para os outros. Ou seja, Bruce deixa de ser um playboy e se comporta “como um herói, que maneja armas ultramodernas, torna-se valente, intrépido, violento e vingativo em seu ódio ao crime na cidade de Gotham. Nesse sentido, poderíamos dizer que ele deixa literalmente de ser Bruce Wayne, relativamente independente da vestimenta que usa” (CABRERA, 2006, p. 163).
Esse critério de reconhecimento por parte dos outros, porém, não é o mesmo proposto por Locke, que defende a autoconsciência como critério definidor da identidade pessoal. Ou seja, para esse filósofo, quando Wayne se transforma em Batman ele tem plena consciência disso e, depois de ter agido como Batman, ele se lembra de ter feito isso. “É a memória autoconsciente que constitui, segundo Locke, a identidade de uma pessoa, o fato de que ela pode reconhecer como seus os atos quer realiza” (CABRERA, p. 164).
Uma última questão, contudo, surge dessa afirmação: o que aconteceria se algumas pessoas encontrassem Batman deitado na rua, após ter sido atingido por um gás alucinante que o fizesse perder a memória e o impedisse de se auto reconhecer? Nesse caso, não poderíamos afirmar com certeza quem essa pessoa é, pois apesar de identificarmos suas vestimentas e seu corpo, esse Batman poderia ser simplesmente um doido vestido de Batman que caiu na rua.
Esse argumento do “louco-no-disfarce” poderia ser utilizado até por Bruce Wayne, caso sua identidade fosse revelada durante sua inconsciência, que poderia preservá-la dizendo que ele gosta de se disfarçar de Batman de vez em quando, mas não é realmente Batman. Sendo assim, Locke parece estar certo quando diz que o verdadeiro critério da identidade é algo que não pode ser socialmente reconhecido, mas apenas conhecido íntima e pessoalmente (a autoconsciência) – e é isso que permite que Bruce mantenha sua identidade dupla.
O cinema, por fim, parece não questionar a filosofia no que diz respeito à identidade pessoal. O filme mais recente de Batman, por exemplo, apresenta várias pessoas que tentam imitar Batman (de certa forma, elas possuem parte da “substância”, das características, de Batman – herói, valente, justiceiro, inteligente, enigmático etc), mas não são ele, de fato, pois a possibilidade de dizer eu sou, segundo Cabrera, não depende somente da posse de um grupo de características inconscientes de si mesmas, mas de um critério mais “psicológico”, de um certo processo mental.

Referências
CABRERA, Julio. O Cinema Pensa: uma introdução à fiilosofia através dos filmes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Idéias Loucas


Alguma vez você já "viajou" na aula, pensando no que poderia estar fazendo naquele momento?

Aposto que em nenhuma das vezes você tenha pensado nisso!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Xenofobia e Futebol

Olá,

As recentes manifestações de ódio dos torcedores venezuelanos de futebol para com os brasileiros me inspiraram a tratar, pela primeira vez nesse blog, sobre esse esporte. Essas demonstrações não se restringem à América Latina e podem ser vistas até mesmo em ligas, nas quais o policiamento e a segurança são mais eficazes, como a UEFA – recentemente, fãs do Atlético de Madrid hostilizaram torcedores do Liverpool.

O elemento xenofóbico, que não é novo, parece estar retomando suas forças em Estados constituídos por uma maioria de imigrantes. Para não ficarmos limitados somente aos casos futebolísticos, tomemos como simples exemplo o rigor da nova regulamentação sobre estrangeiros na Europa e nos Eua. Nesse sentido, o que se percebe é que, segundo Hobsbawm (no livro “Globalização, Democracia e Terrorismo”), a aceleração do desenvolvimento do processo de globalização e da mobilidade dos seres humanos, nas últimas décadas, reforçou a longa tradição popular de hostilidade econômica à imigração em massa e de resistência ao que se vê como ameaças à identidade cultural coletiva.

E o futebol internacional representa, de fato, a dialética das relações entre a globalização, a identidade nacional e a xenofobia. Como afirmou Brochand, em seu livro “Géopolitique du Football” (p. 78), “dessa dicotomia entre, por um lado, o ´nacional`, último refúgio das paixões do mundo antigo, e, por outro, o ´transnacional`, trampolim do ultraliberalismo do mundo novo, resulta, para os amantes do futebol, assim como para os meios que gravitam em torno desse esporte, uma verdadeira esquizofrenia, extremamente complexa que ilustra perfeitamente o mundo ambivalente no qual todos nós vivemos”. Esse mundo ambivalente situa-se entre o local (os clubes) e o nacional (com as seleções nacionais, formadas pelos jogadores dos clubes) e, embora antigamente tenham sido complementares, atualmente percebe-se uma mútua incompatibilidade entre esses campos, com o perdão do trocadilho.

Voltando à questão da xenofobia[1], vê-se que o comportamento dos torcedores é ambíguo e permanece dividido entre o “orgulho que sentem pelo superclubes e pelas seleções nacionais e a crescente importância que competidores provenientes de povos há tempo considerados inferiores alcançaram nos seus cenários nacionais” (HOBSBAWM). Essas demonstrações racistas sobre as quais me referi no início desse post são justamente expressões dessas tensões. Embora o caso na Venezuela não represente exatamente a questão da “aversão ao diferente”, nos estádios europeus esse elemento é muito mais presente. Na Alemanha, por exemplo, o primeiro negro a defender a camisa alemã, Gerald Asamoah, diz que já passou por experiências muito humilhantes dentro de campo, quando torcedores jogaram bananas e cuspiram no jogador, embora reconheça não ser mais mal recebido nos jogos.

O racismo e a xenofobia talvez estejam diminuindo dentro dos estádios, mas isso não significa que os torcedores passaram a compreender as diferenças étnicas ou raciais dos jogadores, representa somente que a vigilância está mais eficaz. Asamoah, novamente, diz que ele e outros jogadores negros e estrangeiros continuam enfrentando problemas no dia-a-dia (segundo o DW, Asamoah já foi discriminado numa cafeteira, e o brasileiro Dedê, impedido de entrar numa discoteca). Uma coisa, porém, é certa: quando um jogador “diferente” faz um gol, até mesmo os torcedores racistas e xenofóbicos comemoram.


[1] Mais sobre a lógica das empresas de negócios futebolísticos e seus impactos sobre a identidade nacional e sobre o enfraquecimento de Copas e Ligas que não estão no circuito das superligas internacionais pode ser encontrado em: “As nações e o nacionalismo no novo século”, IN: HOBSBAWM. “Globalização, Democracia e Terrorismo”.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Campanha do pânico financeiro e suas fraquezas

A quantidade de notícias sobre a “atual” crise financeira norte-americana nos leva a refletir sobre uma possível campanha de desinformação, baseada no medo do consumidor de que seu poder de compra e capacidade de contrair crédito diminua ou até mesmo se extinga, levando-se em consideração a falência de bancos.

Essa campanha iniciada por Bush (que no dia seguinte ao encontro na ONU fez um discurso que tratou somente da crise e defendeu o pacote de ajuda bilionário como forma de salvar o país de uma “recessão longa e dolorosa”) tem repercutido na mídia internacional com o uso de manchetes apocalípticas (“The World As We Know It Is Going Down”, no Der Spiegel, só para exemplificar) que, no mínimo, influenciam o leitor a concordar com a visão do presidente norte-americano. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Henry Paulson – secretário do Tesouro – chegou a se ajoelhar diante da presidente da Câmara para que a mesma não inviabilizasse o acordo prospoto, segundo a última Veja de setembro.

O maior defeito dessa campanha, porém, reside no fato de que a ajuda aos bancos deve partir do consenso popular e a popularidade de Bush é ridiculamente baixa, desde o início desse ano (beirando os 30%). Nesse sentido, sua capacidade de coagir os ianques a aceitar um projeto notadamente estadista é muito baixa. Aliás, aí está o outro problema desse pacote de ajuda: sua característica contrária ao livre-mercado. O que aconteceu com a auto-regulamentação dos mercados? Se alguns bancos agiram de forma errada concedendo empréstimos a quem não deveriam (os pinguços desempregados daquela “simples analogia” que já postei), que essas empresas sofram agora as conseqüências. Afinal, os bancos são apenas uma forma criada pelo mercado para facilitar empréstimos e o fim dessas entidades financeiras significa o surgimento de outras estruturas. Não é a lei da sobrevivência a égide do funcionamento do capitalismo?

A rejeição da proposta do governo, incentivada pelos próprios republicanos, demonstra a fraca liderança de Bush em seus últimos dias como presidente. Essa tentativa de ajudar os bancos parece ter sido um ensaio desesperado de sair do cargo com algum prestígio, como o presidente que salvou a Bolsa americana e solucionou crise financeira (o que esse pacote, aliás, não faria).

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Um novo Crash?

Pânico. Essa é a palavra que marca atualmente os mercados financeiros mundiais e, por conseguinte, todas pessoas que dependem do bom funcionamento dos mesmos - alguns um pouco mais, embora todos nós soframos de alguma maneira com a insustentabilidade do sistema capitalista.

A crise, que não é atual (veja a cronologia aqui), parece ter alcançado o ápice (do declínio) hoje, quando o Congresso norte-americano não aprovou o projeto orçado em US$ 700 bilhões para salvar os bancos dos Estados Unidos. Nesse sentido, após cerca de uma semana de angústia esperando o resultado do congresso, as bolsas americanas despencaram e atingiram níveis históricos. O índice Nasdaq Composite caiu 9,14%, acumulando no ano forte baixa de 25,21% enquanto o S&P 500, que engloba as 500 principais empresas dos EUA, encerrou o pregão em forte desvalorização de 8,81% atingindo 1.106 pontos e caindo 24,65% no ano, de acordo com o infomoney. Os efeitos dessa crise foram sentidos também aqui no Brasil, onde a bolsa sofreu o maior recuo desde o dia 14 de janeiro de 1999 e nenhuma das 66 ações listadas no Ibovespa fecharam em alta hoje.

Essa turbulência criou, então, um pânico financeiro global. O problema, que antes era tratado minunciosamente apenas nos EUA, passou a ser abordado pela mídia internacional e percebe-se que o interesse em entender o que está acontecendo com o mercado americano e os possíveis impactos dessa crise está aumentando. Isso, porém, gera outro problema: a perda de confiança do consumidor. Não só a confiança sobre a economia e sua habilidade em melhorá-la, mas a confiança no sistema bancário foi também abalada, segundo o vice-presidente da holding TNS/EUA (Taylor Nelson Sofres), líder mundial no segmento de pesquisas sob encomenda.

Lula, que na semana passada quando perguntado sobre a crise teria dito "pergunte ao Bush", já percebeu as incertezas e possíveis impactos dessa crise sobre a economia brasileira e reiterou sua posição de consciência com relação aos problemas atuais. Entretanto, voltou a mostrar uma certa ingenuidade na questão do câmbio, ao dizer que "um dia, o dólar vai parar". (Após atingir R$1,96, hoje, a cotação do dólar se igualou ao valor presenciado em 5 setembro de 2007.)

Esperamos que o dólar "pare" e que essa crise tenha uma solução. Porém, o cenário futuro se mostra muito incerto e, enquanto os pessimistas (ou declinistas) apontam até mesmo para o fim do capitalismo (estará Wallerstein perto de ver sua profecia?), os otimistas continuam confiando no mercado e na sua capacidade de se regular e de renovar-se, superando suas fraquezas.


ps= alguém aí quer comprar dólar? :P

domingo, 21 de setembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

A Crise Americana em uma simples analogia

Olá,


Vou postar aqui, com algumas modificações, um texto muito legal que a Carla me enviou. Explica a crise americana (ou mundial?) em termos "simples".

Permitam-me oferecer um similar nacional à crise americana. É assim: o seu João tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça 'na caderneta' aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Por vender a crédito, ele aumenta um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito) e o gerente do banco do seu João, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o "fiado" dos pinguços como garantia.

Uns seis Zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS, PQP ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.Esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais e conduzem a que se façam operações estruturadas de derivativos na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (mas que são as tais cadernetas do seu João).


Esses derivativos vão sendo negociados como se fossem títulos sérios com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países, até que alguém descobre que os bebuns da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas e o Bar do seu João vai à falência.

E toda a cadeia'sifu'.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Tudo pela prevenção! (homenagem ao 11 de setembro)


Olá,

Os colegas me pediram para fazer um post “comemorativo” ao dia de hoje, então decidi analisar a política externa da gestão Bush, a partir dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 (um tema que pretendo abordar, aliás, em minha monografia).

Sabe-se que após esse acontecimento, os EUA envolveram-se em dois conflitos principais - no Afeganistão, em 2001, e no Iraque, em 2003 -, que obtiveram resultados diferentes no âmbito nacional e internacional. Embora num primeiro momento (de espanto, devido aos ataques) a intervenção militar no país de Osama bin Laden tenha conquistado legitimidade política perante a comunidade internacional, o mesmo não foi conseguido na ocupação do Iraque, visto que a falta de evidências do poderio nuclear iraquiano gerou uma dúvida quanto à legalidade dessa investida.

Avaliado, porém, pelo Departamento de Estado norte-americano como uma ameaça à segurança não só estadunidense, mas internacional, o Iraque sofreu a intervenção – sem a aprovação da comunidade internacional e da ONU. Essa ação trouxe consigo, então, uma inovação na política internacional, ao renegar o conceito moderno de soberania (viabilizado por meio do Tratado de Vestfália, em 1648) e consolidar a Doutrina Bush, isto é, “a adoção prioritária da força por parte dos Estados Unidos em detrimento do emprego de mecanismos diplomáticos em face de danos iminentes à segurança nacional”1.

Bush, portanto, leva adiante os valores contidos na sociedade ianque desde sua independência (como as idéia de “farol do Mundo” ou “cidade na colina”2) ao ofertar ao mundo a “visão dicotômica de apoio ou oposição à sua política externa”3 – vide seu famoso discurso: "todas as nações, em todas as regiões, agora têm uma decisão a tomar: ou estão conosco ou estão com os terroristas". O que se percebe, assim, é uma divisão maniqueísta do mundo, defendia à força pelos americanos (os “bonzinhos”) contra os terroristas (os “malvados”).

De forma geral, para não me alongar mais nesse texto (uma análise mais profunda sobre a política externa de Bush não caberia em um “post”), a avaliação do mandato desse chefe de Estado norte-americano é negativa, visto que grande parte de seus objetivos – de promover a democracia e a estabilidade no Oriente Médio, por exemplo – não foram alcançados. Além disso, o que se percebeu, às vezes, ao longo desses 7 anos, foi uma inversão de papéis entre as personagens americanas e terroristas, dado os registros de torturas a prisioneiros militares no Iraque e outras desconsiderações das Convenções de Genebra, como o estabelecimento de um presídio em Guantánamo – sem contar os vários outros centros de detenção em países não revelados pela CIA, que investigam possíveis ameaças à segurança estadunidense.

Por fim, os Estados Unidos parecem preparados para exercer seu poder na caça a terroristas e regimes maléficos, mas não o utilizam para ajudar a estabelecer uma ordem mundial mais estável e pacífica. Ao contrário de aprimorá-las, os Estados Unidos parecem estar degradando as normas e instituições da comunidade internacional.

ps= quem quiser saber de propostas para a política externa americana procure “Fukuyama: Invasion of the isolations” ou o livro do Nye, “O paradoxo do poder americano”. Sobre os princípios da Doutrina Bush, busque a Revista Política Externa, vol 11, nº 3, de janeiro de 2002/2003.

Fontes:

1,3: ARRAES, V. Estados Unidos: o insucesso da política externa bélica do governo Bush. revista de Economia & Relações Internacionais, v. 6, p. 50, 2007

2: PECEQUILO, Cristina Soreanu . A Política Externa dos Estados Unidos: Contiinuidade ou Mudança- Ampliada e Revisada. 2a. ed. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2005

Wallerstein, Immanuel Maurice. Declínio do poder americano : os Estados Unidos em um mundo caótico. Rio de Janeiro : Contraponto, 2004.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Disputa nos estados



Olá,

Vai aí um post preguiçoso, mas informativo. Na foto da esquerda, vemos os estados onde cada candidato está ganhando e onde os eleitores ainda se mantém indefinidos (independentes). A disputa, como se pode perceber, é acirrada e, de acordo com o The Economist, "McCain precisa de 55% dos votos independentes e 15% dos votos democratas para vencer a eleição". O republicano, porém, já pode comemorar os efeitos positivos de sua nova chapa, visto que pela primeira vez assumiu a liderança nas pesquisas (Folha) pela disputa à Casa Branca. Embora esses números não signifiquem muita coisa (como explica Idelber), dada a complexidade do sistema eleitoral americano e a história eleitoral desse país (o último último candidato a ser eleito com mais de 50% dos votos foi Bush pai, em 1988, com 53,4%), eles revelam que a aposta de McCain foi acertada - e justificam a colocação dessa foto da direita aqui.
Novamente sobre a foto dos estados, as pesquisas nesses locais ainda indecisos (cerca de 15) são as únicas que realmente importam. Enquanto nos estados costeiros (como Califórnia e Nova Iorque) Obama é o favorito - os democratas sempre são, aliás, favoritos nessas regiões, segundo Rodrigo Cerqueira - nos estados centrais McCain é o principal candidato.

Levando-se em consideração que cada candidato já entra com 40% na disputa presidencial, é mais do que correto afirmar que ambos têm chance e que o próximo presidente americano será eleito com uma margem pequena de vantagem em relação a seu adversário.